Junta de Freguesia de Póvoa de Varzim Junta de Freguesia de Póvoa de Varzim

Siglas Poveiras no espaço urbano

Este Roteiro convida a olhar para as ruas, as fachadas, das casas, para os passeios em busca de Siglas, espalhadas pelas cidade. A Sigla Poveira é uma marca de propriedade que se tornou um brasão de família entre a Classe Piscatória. Caiu em desuso no início do séc. XX, foi documentada por vários autores como Candido Landolt, Lixa Filgueiras, Viriato Barbosa e Santos Graça. Hoje em dia assume-se como um símbolo da alma poveira e vai surgindo como adorno estético, como identidade familiar e como filiação à Póvoa por toda a cidade. Este é um convite a ver a Póvoa de outro ponto de vista: o ponto de vista das Siglas Poveiras.

Duração: 2 horas

Percurso: plano, sem obstáculos

Ficha Técnica:

Autor: Maria Eduarda Ferreira

Aluna da Licenciatura em Gestão de atividades Turísticas

Orientadora da ESHT: Daniela Meneses

Coordenador: José Ricardo Silva

Orientadora de Estágio: Cátia Cruz

Bibliografia:

O Poveiro de Santos Graça

Boletim Cultural da Póvoa de Varzim

Folklore Varzino de Candido Landolt

Monografia da Póvoa de Varzim, Viriato Barbosa

Siglas Poveiras no espaço urbano

 

# Trilho Descrição
Estátua a Santos Graça António dos Santos Graça nasceu em 16 de janeiro de 1882 e faleceu em setembro de 1956. Poveiro e conhecedor da história local dedicou a sua vida à Póvoa de Varzim, fazendo registos em seus livros sobre a “colmeia” - como autor se referia à classe piscatória. Na sua vida profissional passou por diferentes áreas, desde a administração pública, indústrias têxteis e de conservas de peixe, destacando-se na etnografia e jornalismo. O Comércio da Póvoa de Varzim, A Povoense, O Clube Naval Povoense, A Marítima - Associação da Classe dos Pescadores da Póvoa de Varzim, A Beneficente, e a criação do Grupo Folclórico Poveiro e do Museu de Etnografia e História da Póvoa de Varzim são tudo legados de Santos Graça. Não sendo o bastante, Santos Graça também é autor de obras que retratam o quotidiano poveiro, sendo exemplos: Epopeia dos Humildes, Psicologia da Mãe Poveira, Inscrições Tumulares por Siglas e O Poveiro. Livro amplamente utilizado como base para desenvolver este roteiro. Sigla – Os Amarelos António dos Santos Graça (16 de janeiro de 1882 / 7 de setembro de 1956)
As marcas dos banheiros – Apoios de praia Nem só no alto mar usavam-se as siglas. Com a aproximação do verão, as areias poveiras ganham novos elementos. Ao passar por estas barracas relembramos uma das profissões mais importantes para a cidade da Póvoa de Varzim no século XIX, os banheiros. Os banheiros são os homens e mulheres responsáveis pelas barracas, segurança e apoio aos banhistas e pertenciam, na maioria, a classe piscatória, surgindo dai essa ligação às siglas. Com a Póvoa de Varzim afirmando-se como uma estância balnear pela concentração de Iodo em suas praias e o grande fluxo de banhistas nos meses de verão, surge nesta profissão uma elevada concorrência pelos espaços e pelos banhistas. Assim, para organizar os negócios e os bens, os banheiros usavam as suas siglas familiares para marcar tudo o que lhes pertencia: as ferramentas, as cadeiras, os paus das barracas e até os panos. Nas traseiras do apoio de praia do setor 10 encontramos as siglas dos “Moucos”, composta por duas estrelas e coice.
Siglas nos Apoios de PraiaAqui está mais um exemplo de utilização da Sigla como Brasão familiar. Além do nome dos banheiros responsáveis pelo equipamento, a Sigla surge como forma de reforço da ligação à terra, como garantia de autenticidade e tradição no serviço aos banhistas. Sector 10 Albino e Maria do Mouco e Filhos Sigla dos Avós - Os Moucos Sector 6 António e Ricardina da Hora Sigla dos D'a Hora
A siglas como identidade poveira – Casa nº 77 As siglas ou as marcas que eram utilizadas pelos pescadores constituem uma das principais referências identitárias da Póvoa de Varzim. Atualmente, encontramos as siglas nas placas toponímicas, como motivos de calçada portuguesa, nos apoios de praias, como logotipos e, mais raramente, em residências particulares. As siglas, assim como a camisola poveira, o rancho poveiro e o traje tradicional poveiro são a identidade da Póvoa de Varzim. Graças ao trabalho de António Santos Graça, que podemos ler no “O Poveiro” e “Inscrições Tumulares por Siglas” hoje existe um melhor conhecimento sobre as Siglas. Ao contrário do que muitos pensam as siglas não são um conjunto de letras que juntas formam uma palavras, mas sim uma solução prática utilizada para marcar a posse dos objetos. Durante muitos anos em que o analfabetismo era comum, as Siglas foram a única forma acessível a todos e, mesmo para aqueles que sabiam escrever, colocar os seus nomes nos objetos seria mais complicado, por isso as Siglas surgem como uma alternativa prática. Atualmente, as siglas estão em desuso, mas vêm se apresentando cada vez mais como uma marca identitária da Póvoa de Varzim. A curiosidade originada por alguns intelectuais de finais do século XIX e início do século XX despertou o valor etnográfico desta tradição e, posteriormente, Santos Graça com as suas obras reforçou a valorização cultural destas marcas dos pescadores. Sabe-se que marcar os objetos com símbolos como forma de identificar a posse não era uma prática exclusiva dos pescadores poveiros, mas tendo em consideração diversos fatores, estes acabaram se tornando elementos identitários da Póvoa de Varzim. Casa nº77 - É um projeto do gabinete de Cadilhe Fontoura – Arquitetos Lda, datado de 2008, tendo sofrido alterações em 2010, onde passou a apresentar uma fachada de chapa metálica decorada com siglas de diferentes pescadores. *Procura história da casa de metal.
As siglas no chão de entrada das casas – Os fome negras Localizada no chão de entrada da garagem do prédio nº 50, esta a sigla pertence a família “Os Fome Negras”, sendo a representação de uma grade de quatro piques, uma estrela e uma cruz. Esta marca foi catalogada por Santos Graça e está no livro O Poveiro. Os Fome Negras, como chama Santos Graça ou “Fomenegra”, foi uma família de grande relevância para a história da “Colmeia Piscatória”. A “Fé em Deus” foi uma das últimas Lanchas Poveiras a deixar o mar e pertencia ao “Velho tio Francisco Fome negra”. A Fé em Deus foi uma das últimas Lanchas a deixar o mar em 1950. Era propriedade do velho arrais Francisco Fomenegra, tendo o seu filho manuel Fernandes Troina, oferecido a Lancha ao Museu. Em Julho de 1960, abandonaria a praia do pescado. Em completo abandono, nunca chegou ao Museu, acabando por desaparecer ainda junto à fortaleza. O Director da Bilioteca Municipal, Manuel Lopes foi o grande entusiasta da construção de uma nova lancha Poveira. Poeticamente decidiu dar-lhe o nome de "Fé em Deus", reabilitando a velha lancha dos Fome Negra.
As siglas na publicidade – Pastelaria Doce NorteAo longo dos anos a utilização das siglas como forma de estabelecer a propriedade dos objetos, foi perdendo sentindo. Com a escolaridade obrigatória, a alfabetização e os avanços tecnológicos as siglas acabaram por perder utilidade. Atualmente, por serem vistas como uma marca identitária da Póvoa de Varzim, as siglas estão a adquirir novos papéis, especialmente no domínio do design. Na pastelaria Doce Norte as siglas surgem não como uma forma de marcar a posse, mas sim um complemento publicitário, que integra o negócio de forma clara na comunidade poveira.
A siglas na Calçada Portuguesa - Posto de Turismo As siglas não eram só utilizadas em objetos como redes, peixes, balizas e túmulos indicando a posse, serviam também para registar os lugares por onde os Poveiros passavam. Indo mais para norte, era possível encontrar as siglas poveiras nas portas de duas capelinhas, Nossa Senhora da Bonança, em Esposende e na Capela de Santa Tecla, em A Guarda, Espanha. Eram nestas portas onde os pescadores faziam as suas marcas como forma de registar a passagem por ali. Na capela de Santa Tecla, existia uma crença que uma telha virada na capela fazia melhorar o tempo, virando o vendo para norte, facilitando o regresso a Portugal. Não só estas capelas são exemplos de lugares onde os poveiros deixavam as suas marcas, outras capelas e mosteiros onde fossem pagar promessa também são exemplos. Seja nas portas, mesas da sacristia ou cercaduras de madeira as marcas assim serviam como testemunho do cumprimento das suas promessas, sendo exemplos os templos da Senhora da Abadia e São Bento da Porta Aberta, em terras de Bouro, São Torcato, em Guimarães, Senhora da Guia, em Vila do Conde e Santa Cruz, em Balazar.
As siglas representam objetos do dia-a-dia – Rua da Alegria, placa toponímicaA questão que fica é, de onde vieram as inspirações para estes símbolos? Eram feitos com navalhas e facas, não podiam ser muito complexos, nem arredondados, além das siglas serem uma forma mais pratica e fácil para reconhecer a posse. Como inspiração, os pescadores utilizavam objetos do dia a dia como vela, mastro e verga, lancha, arpão, pena, pente e padrão, sendo estes alguns exemplos de uma grande relação de objetos que eles usavam para criar as suas próprias siglas. A tarefa não era fácil pois cada pescador deveria ter a sua e, quando alguém vindo de fora da Póvoa possuía materiais de pesca e não fizesse parte de nenhuma família já existente, este deveria criar a sua própria marca com a difícil tarefa desta não ser confundida com as que estavam em uso. As mulheres faziam parte da tripulação, mas em terra e por isso assumiam as siglas dos maridos e, quando levavam redes para o mar, normalmente mulheres solteiras ou viúvas, tinham de desenvolver a sua própria sigla.
Siglas na fachada e identificação de Alojamento LocalA história que mais se tem propagado é que as siglas poveiras têm origem Viking, baseando-se nas deslocações destes povos e suas paragens na região. A semelhança geométrica das Siglas com as Runas e a busca pelas origens reforçam essa interpretação que carece de evidências históricas. A bravura e coragem dos Poveiros em cruzarem os mares vai de encontro com às sagas dos nórdicos, sendo esta relação muito apelativa e replicada, mas a ausência de dados arqueológicos não permite corroborar esta teoria. Outra hipótese é que estas tenham surgido através da evolução das marcas de feitor ou marcas de posse medievais. Este tipo de técnica utilizada para marcar a posse era comum na Europa medieval, onde a taxa de analfabetismo era muito alta e, para ser uma forma mais prática, pedreiros, artesãos e mercadores utilizavam símbolos geométricos para distinguir os seus pertences. Com base nesta teoria, os pescadores da Póvoa de Varzim teriam desenvolvido as suas próprias marcas com inspiração nas marcas medievais.
A Sigla no design moderno - Avenida Mouzinho nº80Assim, como a pastelaria Doce Norte, o escritório de contabilidade, gestão e consultoria Marques Ramos, Lda. utiliza as siglas para compor o seu placar publicitário. Neste caso, as siglas que compõe o logotipo não são originarias da pescaria. São estilizações das iniciais da firma, desenhadas para se assemelharem a Siglas Poveiras.
A Sigla como Marca de propriedade nos objetos - Rua Cândido Landolt nº XTudo o que se possuía era marcado, desde os remos e redes, mesas, chinelos e até mesmo as contas a fiado. Além das siglas, os pescadores também desenvolveram as marcas de peixes e raias, as marcas de balizas e divisas. As balizas eram boias utilizadas para sinalizar as redes que eram deixadas em alto mar durante um ou mais dias e, além disso, sinalizava as outras embarcações a identidade do proprietário das redes. Cada lancha ou catraia que frequentava a mesma zona de pesca possuía a sua forma de organizar o arranjo de folhas de louro, podendo acontecer das balizas serem semelhantes entre os lanchões e rasqueiros, quando estes não pescavam no “mesmo mar”. As divisas eram desenhos decorativos que juntamente com o nome marcavam a propriedade doa barcos, além de ajudarem no reconhecimento com o mesmo apontava na entrada do porto. Eram utilizadas também como proteção, invocando “a defesa das forças sobrenaturais contra todos os males”, recorrendo a invocações aos santos patronos da embarcação e desenhos como peixes, cruzes, sanselimões, aves e lanças, entre outros desenhos, pintados à mão na parte da frente e trás das embarcações ficando no centro o seu nome. Nas embarcações “modernas” as invocações aos patronos não era, tão comuns, assumindo o lugar frases como descreve Santos Graça “mais terrenas e alegres”. As balizas e divisas eram símbolos de pertenças das famílias, dos donos dos lanchões, sendo passadas para de geração em geração para aqueles que assumissem a responsabilidade da embarcação. Normalmente as lanchas eram herdadas pelos filhos ou, em certos casos, as passavam a um companheiro de lancha e, quando isto acontecia, estas marcas passavam a pertencer a outra família. Esta Sigla pertence à família Manazé. xxxxxxx
As Siglas na Classe Piscatória - Rua 31 de janeiroA comunidade piscatória poveira sempre foi muito bem organizada, tudo estava muito bem regulado. No caso dos lanchões e Rasqueiros, o produto de cada rede pertencia ao respetivo proprietário e assim que colhidos os peixes deviam ser devidamente marcados, para isso, faziam cortes ou marcas. Desenhar as siglas em dezenas de peixes em alto mar não seria uma tarefa fácil e por isso criaram as marcas de peixe e raias. Estas marcas não eram pessoais, mas sim definidas de acordo com as que já estavam sendo utilizadas por outros tripulantes, ou seja, caso o pescador mudasse de embarcação, a sua marca de peixe ou de raia podia mudar, consoante a disponibilidade das mesmas. Nos barcos de sardinha e pesca à linha os peixes eram divididos igualmente para todos os tripulantes, por isso, não existia a necessidade de serem marcados. Agora a questão que fica é, já que os peixes pertenciam aqueles que colocavam as suas redes no mar, o que acontecia quando o homem adoecia, ou a mulher ficava viúva e os filhos órfãos? Quando os homens eram “obrigados” a ficar em terra por motivos de doenças, resolver problemas maiores, casar ou batizar um filho, as suas redes iam para o mar como se o mesmo estivesse embarcado. Se fosse preso os motivos são discutidos, em caso de furto, por exemplo, perdia todos os direitos, mas em caso de doença ou falecimento, a família não ficava sem amparo. Nos barcos de sardinha e pesca à linha, o produto da pesca era dividido de forma igual, por isso, a divisão para o amparo dos doentes, viúvas e órfãos era mais fácil. Nos Lanchões e Rasqueiros esta compensação era mais complicada, uma vez que cada tripulante levava a sua rede e estes eram proprietários dos peixes que nelas pegavam. Era então estabelecido que cada tripulante tinha o seu parceiro, ou seja, se a lancha tivesse 30 tripulantes, eram formados 15 pares e assim, na ausência de um, o outro ficava responsável pela sua rede.
As siglas na entrada das casas – Rua dos FavaisOs poveiros usavam as suas siglas e marcas em tudo, redes, peixes, para afirmar promessas, nas portas das casas para identificar quem ali morava e até quando casavam, não era diferente. Registavam suas marcas com as facas lhes serviam para aparar a cortiça das redes na mesa da sacristia da atual Igreja Matriz e na da Igreja da Lapa, onde ainda hoje é possível observar estas gravações, e na mesa da sacristia da antiga Igreja Matriz, que desapareceu com a demolição da igreja. Além disso, as siglas serviam também para identificar as contas fiadas, antes de cada valor devido, era posta a marca da pessoa que devia, para a identificar. No chão de entrada da garagem nº x encontramos a sigla da família Troina, colocada na altura das obras no pavimento a pedido da família.
As alcunhas - Praça do AlmadaSantos Graça no seu livro “O Poveiro” tem um capítulo destinado as “Alcunhas” onde começa por dizer que os nomes próprios dos Poveiros desapareceram e prevalecem então as suas alcunhas. Cada poveiro herda pelo menos duas alcunhas assim que nasce, uma por parte da mãe e outra por parte do pai, sendo a que escolhe para se identificar reflexo da projeção social de uma parte das famílias ou dos progenitores. Apesar disso, cada indivíduo fica sujeito ao longo da vida por seus atributos físicos, psicológicos ou comportamentais a receberem alcunhas postas pelas mães, em conversas entre amigos ou herdadas dos padrinhos, podendo um indivíduo também estar associado a mais de uma alcunha. Ao nome "de Igreja" associa-se outra designação no seio familiar. Se o bebé chorava muito, ficava logo "Choranga", se estava sempre a pedir comida "fome negra", se era gordinho, era chamado de "meu botinho" e daí "os do Boto". Não há família de pescador que não tenha alcunha e a alcunha ajuda a distinguir os ramos familiares. Na Póvoa piscatória há duas famílias "Ferreira Moreira": os Tabojos e os Maranhas. Certamente que há um ancestral comum, o que até se pode verificar pela semelhança entre as Siglas destas duas famílias. As alcunhas e as siglas surgem então como elementos complementares, os nomes e apelidos por vezes podiam não ser eficazes, pois na “Colmeia Piscatória” coexistiam pessoas com a mesma identificação.
As Siglas como elemento decorativoAs Siglas cairam em desuso com a alfabetização da classe piscatória. O pescador deixa de marcar a sua propriedade com siglas, passando a poder escrever o seu nome. Também os aprestos marítimos sofreram uma grande revolução, passando como muitos dos objetos do dia a dia, a não possuir o mesmo valor relativo, com a introdução de agulhas de rede em plástico, bóias de plástico que substituem os cortiços, redes de nylon, etc. As Siglas já estavam em grande declínio quando Santos Graça escreve o Poveiro, daí a sua preocupação em registar as que ainda existiam, bem como a sua forma de construção e transmissão. As milhares de Siglas chegam até nós através dos investigadores que no início do séc. XX estudaram a classe piscatória, mas também pela sua valorização enquanto elemento de design gráfico. Persistem como uma ligação visual à realidade ancestral da Colmeia Piscatória, muitas vezes sem qualquer ligação à família tronco, mas como símbolos da coragem dos pescadores poveiros, que persistem como linguagem visual ou até como elementos arquitetónicos como é o caso.
Museu Municipal: As siglas transmitem-se de pais para filhosAs siglas funcionavam como brasões de famílias. O chefe de família escolhia a sua marca, que ia passando de geração em geração. O primeiro filho adicionava um pique ao lado da marca do pai, o segundo filho mais um e assim sucessivamente, correspondendo o número de piques a sua sucessão na descendência. Estes piques eram organizados de formas diferentes, podendo ser alinhados ou formando outros símbolos. No entanto, o filho mais novo herda a sigla do pai. Era o mais novo que assumia o lugar do pai no barco, quando a idade já não lhe permitia navegar. Entendiam que o filho mais novo era quem possuía mais condições para assumir esta responsabilidade, além da idade. Assumia cuidar dos pais e por isso herdava também os seus aprestos com a Sigla do pai marcada. Apesar desta ser a regra geral, existem algumas exceções. No livro "O Poveiro", Santos Graça registou três. A primeira é quando, ao fazer o seu estudo, o autor percebeu que em algumas árvores familiares apareciam símbolos muito diferentes daquele que seria o “tronco”. Isto acontecia quando o rapaz se casava com uma mulher herdeira de uma casa onde só havia irmãs, por isso, o genro assumia a sigla do sogro como herança. Os outros dois exemplos que Santos Graça destaca são mais particulares, o primeiro ocorre na árvore familiar “Dos Liros”, onde a regra dos piques se quebrava logo no primeiro filho. “Tio João do Liro” herdou os aparelhos da sua “Ti’ana”, casada com um capitão de navios, deixou as redes para o sobrinho. Sendo a marca da família uma grade, a sua tia por ser a segunda filha utilizava a grade e dois piques em cruz, o pai de “Tio João do Liro” por sua vez era o terceiro filho e utilizava a grade e os três piques em formato de estrela, tendo então ele assumido a sigla da tia. Outro exemplo é o do “Tio Januário”. Quando questionado por Santos Graça para fazer a sua sigla, desenhou o São Selimão com três piques e um por cima, o que indicava que era o quarto filho. Neste caso, ele era o quarto de cinco irmãos, sendo que três destes eram mulheres que tinham redes de pesca. Apesar de não irem ao mar, as redes eram levadas pelos “meeiros”, homens que levavam para o mar redes que não eram suas, ficando com metade do produto conseguido com estas redes. Sendo assim, pode-se dizer que apesar da regra de sucessão onde o filho mais novo herdava a marca original do pai sem qualquer alteração, para ter meios suficientes para assumir a responsabilidade de cuidar dos pais na velhice e os filhos mais velhos, ao casarem e formarem família, adotavam a marca base acrescentando traços os piques para marcar a sua ordem de nascimento ser a mais comum e mais fácil de se identificar, não era a única forma de herdar as siglas.

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